"tu disseste", dos mão morta: marginal? um diálogo nonsense?

 

para quem não conseguir ouvir por aqui, deixo aqui o link... https://www.youtube.com/watch?v=2s-NCjfvezI&ab_channel=okapa

Tu disseste é uma das canções mais ouvidas do grupo Mão Morta, que revela mais uma vez, quiçá, a genialidade de Adolfo Luxúria Canibal. Para quem ouve música só por ouvir, não lhes dirá nada. Mas para quem ouve música e abraça a experiência (isto é, ouvir a letra), poderá perceber o que tentei explicar. A priori, trata-se de um diálogo entre duas pessoas que gira em torno de tudo e de nada. Para mim, é até cómico. Uma particularidade presente em qualquer canção dos Mão Morta é o facto de que Adolfo Luxúria Canibal não canta - ele narra. O piano e os ritmos que intercalam os versos são o que mais me intrigam. E o diálogo parece nunca acabar, à medida que a canção desenvolve num crescendo redundante até chegar a um clímax suspenso. Trouxe-vos esta música e a respetiva letra para esta UC não só por ser pessoalmente do meu agrado, como também poder acrescentar algo à discussão do cânone e do que está à margem. Já que falamos tanto do cânone em aula, desafio-vos a ouvir, e não a ouvir a música. E por isso, desafio-vos também a pensar: como é que esta letra é marginal? Como é que pensam neste conceito? O que pensam deste diálogo?

Enfim...não me vou alongar mais. Aqui está a letra.


Tu disseste

Quero saborear o infinito

Eu disse

A frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis

Tu disseste

Sentir a aragem que balança os dependurados

Eu disse

É o medo o que nos vem acariciar

Tu disseste

Eu também já tive medo, muito medo

Recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da porta

Eu disse

Acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala

Tu disseste

Um dia fiquei sem nada

Um mundo inteiro por descobrir

Eu disse

Eu disse

O que é que isso interessa?

Tu disseste

Nada

Eu disse

O que é que isso interessa?

Tu disseste

Nada

Eu disse

O que é que isso interessa?

Tu disseste

Nada

Tu disseste

Agora, procuro o desígnio da vida

Às vezes, penso encontrá-lo num bater de asas

Num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon

Escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo

Depois, queimo tudo e prossigo a minha busca

Eu disse

Eu não faço nada, passo horas a olhar para uma mancha na parede

Tu disseste

E nunca sentiste a mancha a alastrar

As suas formas num palpitar quase imperceptível?

Eu disse

Não, a mancha continua no mesmo sítio

Eu continuo a olhar para ela e não se passa nada

Tu disseste

E no entanto a mancha alastra e toma conta de ti

Liberta-te do corpo, tu é que não vês

Eu disse

O que é que isso interessa?

Tu disseste

Nada

Eu disse

O que é que isso interessa?

Tu disseste

Nada

Eu disse

O que é que isso interessa?

Tu disseste

Nada

Eu disse

O que é que isso interessa?

Tu disseste

Nada

Eu disse

O que é que isso interessa?

Tu disseste

Nada

Eu disse

O que é que isso interessa?

Tu disseste

Nada

Eu disse

O que é que isso interessa?

Tu disseste

Nada

Eu disse

O que é que isso interessa?

Tu disseste

Nada

Eu disse

O que é que isso interessa?

Tu disseste

Nada

Eu disse

O que é que isso interessa...?

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