"tu disseste", dos mão morta: marginal? um diálogo nonsense?
Tu disseste é uma das canções mais ouvidas do grupo Mão Morta, que revela mais uma vez, quiçá, a genialidade de Adolfo Luxúria Canibal. Para quem ouve música só por ouvir, não lhes dirá nada. Mas para quem ouve música e abraça a experiência (isto é, ouvir a letra), poderá perceber o que tentei explicar. A priori, trata-se de um diálogo entre duas pessoas que gira em torno de tudo e de nada. Para mim, é até cómico. Uma particularidade presente em qualquer canção dos Mão Morta é o facto de que Adolfo Luxúria Canibal não canta - ele narra. O piano e os ritmos que intercalam os versos são o que mais me intrigam. E o diálogo parece nunca acabar, à medida que a canção desenvolve num crescendo redundante até chegar a um clímax suspenso. Trouxe-vos esta música e a respetiva letra para esta UC não só por ser pessoalmente do meu agrado, como também poder acrescentar algo à discussão do cânone e do que está à margem. Já que falamos tanto do cânone em aula, desafio-vos a ouvir, e não a ouvir a música. E por isso, desafio-vos também a pensar: como é que esta letra é marginal? Como é que pensam neste conceito? O que pensam deste diálogo?
Enfim...não me vou alongar mais. Aqui está a letra.
Tu disseste
Quero saborear o infinito
Eu disse
A frescura das maçãs matinais revela-nos segredos insondáveis
Tu disseste
Sentir a aragem que balança os dependurados
Eu disse
É o medo o que nos vem acariciar
Tu disseste
Eu também já tive medo, muito medo
Recusava-me a abrir a janela, a transpôr o limiar da porta
Eu disse
Acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala
Tu disseste
Um dia fiquei sem nada
Um mundo inteiro por descobrir
Eu disse
Eu disse
O que é que isso interessa?
Tu disseste
Nada
Eu disse
O que é que isso interessa?
Tu disseste
Nada
Eu disse
O que é que isso interessa?
Tu disseste
Nada
Tu disseste
Agora, procuro o desígnio da vida
Às vezes, penso encontrá-lo num bater de asas
Num murmúrio trazido pelo vento, no piscar de um néon
Escrevo páginas e páginas a tentar formalizá-lo
Depois, queimo tudo e prossigo a minha busca
Eu disse
Eu não faço nada, passo horas a olhar para uma mancha na parede
Tu disseste
E nunca sentiste a mancha a alastrar
As suas formas num palpitar quase imperceptível?
Eu disse
Não, a mancha continua no mesmo sítio
Eu continuo a olhar para ela e não se passa nada
Tu disseste
E no entanto a mancha alastra e toma conta de ti
Liberta-te do corpo, tu é que não vês
Eu disse
O que é que isso interessa?
Tu disseste
Nada
Eu disse
O que é que isso interessa?
Tu disseste
Nada
Eu disse
O que é que isso interessa?
Tu disseste
Nada
Eu disse
O que é que isso interessa?
Tu disseste
Nada
Eu disse
O que é que isso interessa?
Tu disseste
Nada
Eu disse
O que é que isso interessa?
Tu disseste
Nada
Eu disse
O que é que isso interessa?
Tu disseste
Nada
Eu disse
O que é que isso interessa?
Tu disseste
Nada
Eu disse
O que é que isso interessa?
Tu disseste
Nada
Eu disse
O que é que isso interessa...?
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